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domingo, 20 de junho de 2010

CAFé-debate feminista 26 de junho


A proposta do evento CAFé promovido pelo Coletivo de Ação Feminista é de começar um espaço cultural ou contracultural feminista, assim como para a visibilidade e incentivo produção de mulheres e para o debate político, exposição de idéias e contestação dos modelos impostos de vida. Um espaço de criatividade, que estimule a produção independente e a formação de outros agrupamentos políticos, apoio a estilos de vida alternativos aos regimes repressivos, ao patriarcado e de enfrentamento ao capitalismo, contrários à lógica de mercado e ao autoritatismo político.

Dar a voz a nós mesmas e divulgar a desconstrução do gênero e das relações assimétricas é um dos passos a serem dados pelas iniciativas feministas. CAFé é o primeiro de muitos espaços a serem tomados politicamente, pois a idéia é de que surjam sempre novas idéias e atitudes e fortalecer o cenário cultural feminista e anti-patriarcal.

Nossas ações são abertas para atingir todxs que estão implicados na construção de outras possibilidades de vida, por isso a presença de todxs que devem aprender do feminismo: homens, mulheres, jovens, velhxs...e neste caso o privilegiamento da voz de garotas numa sociedade em que não temos vozes e queremos começar a falar e nos expressar, repudiar e construir alternativas, fazer visível as limitações e repressões que se tornaram rotinizadas.



DIA 26 DE JUNHO, SÁBADO às 14h

Onde: Inkustom Tattoo Estúdio - Trajano Reis, 335 - próximo ao Largo da Ordem.

Entrada: R$ 5,00.

terça-feira, 23 de março de 2010

Feminismo? Por que Feministas?

O Feminismo é um movimento social e uma ideologia política que geralmente é definido como a luta pela igualdade de condições entre homens e mulheres, mas que na verdade se expande para incluir a igualdade entre todos seres humanos e o respeito a todas formas de vida. De fato, desde os 60, feministas vieram lutando para que mulheres fossem reconhecidas como, mais que mulheres, seres humanos assim como os homens e qualquer outro gênero, assim afirmando a sua dignidade humana e desmistificando as noções clássicas que ditam o que mulheres e homens são ou devem ser, e as supostas diferenças entre esses.

Embora o termo feminismo ou feminista seja recente, não significa que mulheres nunca tenham lutado, ao longo da história, pela sua liberdade e afirmação. A resistência de mulheres sempre existiu, talvez um dos mais antigos registros de uma resistência de mulheres tenha sido a caça às bruxas durante a Inquisição Medieval, onde muitas mulheres que saiam do que era esperado delas - subordinação, obediência, resignação - mulheres que ousavam ocupar áreas de atividade e trabalho não permitida à mulheres, eram denunciadas e mortas, queimadas publicamente como 'ameaças à ordem'. Mulheres que expressaram alguma rebeldia e insubmissão ao longo do tempo podem ser vistas como feministas. Mesmo assim, por maior que seja o medo de mulheres de contestar as injustiças que presenciem, sempre há um grau de incômodo em todas mulheres, que às vezes são expressos em depressões e ansiedades, ou em pequenos e invisíveis sabotagens - queimam a comida, atrasam o expediente, 'nunca vencem a casa' demonstrando não-adaptação aos modelos exigidos delas.

Mulheres no começo do século XX passado sentiam muita inquietação e descontentamento por não se verem em possibilidades de exercerem todos seus potenciais, pois apenas eram permitidas atuarem no campo doméstico e não participar da vida pública de sua sociedade. Mulheres de classes mais pobres eram, pelo contrário, sobre-exploradas, situação que permanece, e assim se organizaram em movimentos de reinvindicação de melhorias nas condições de trabalho.

De onde vem a subordinação da Mulher?

Aprimorando suas análises, as feministas vão dizer, então, que a base da opressão sobre mulheres é o chamado Patriarcado, regime da dominação masculina, estabelecido pelo direito paterno na fundação da família. Nesta, surgem as divisões de trabalho doméstico e social, divisão que é falsa pois o trabalho de casa (incluindo aí toda gerência da família e seu bem-estar, o cuidado e criação dos filhos, a satisfação dos membros) é um trabalho social indispensável para que o Capitalismo se garanta. O trabalho feminino, de fato, é o mais sobrecarregado de todos, invisível - por não ser admitido como trabalho e sim como algo obrigatório derivado de sua condição de 'mulher' e 'mãe' - e sem reconhecimento social, não remunerado. Portanto, trata-se de um trabalho escravo.

Esse mesmo regime econômico (economia como sendo a administração dos meios de vida) precisou criar as classes sexuais como as conhecemos, homem e mulher, onde o primeiro representa os atributos da atividade, força, liderança, poder e o segundo passividade, impotência, obediência e dependência. Assim sendo, a origem de todas categorias de opressão - senhor/servo, patrão/subordinado, opressor/oprimido - surgem da divisão primeira da humanidade entre homens e mulheres. Todo oprimido, nas análises feministas, é ‘feminilizado’. A feminilidade é uma construção cultural que nos molda nos sujeitos que devemos ser, assim aprendendo desde cedo como 'funcionar' no sistema para que esse continue também 'funcionando' adequadamente. Isso significa que todos oprimidos têm algo em comum também, e que Racismo, Homofobia, Especismo (exploração dos animais), Classismo são lutas feministas pois, quando atacam os direitos de um destes grupos, atacam aos nossos também e de nós todos. A nossa Libertação só existirá quando todos forem Livres.
Então, enquanto as análises críticas de todos movimentos sociais não incorporarem as noções feministas não poderemos almejar uma profunda e verdadeira transformação social, já que o regime patriarcal é o mais antigo de todos e se ele permanece, mantêm reproduzindo os modelos e opressões que originam as sociedades Capitalistas, Imperialistas, colonizadas e militarizadas.

Feminismo é o contrário de Machismo?

Feminismo não significa extinção de homens, nem opressão à homens (geralmente isso é usado como uma forma de censura, perseguição e divulgação de um anti-feminismo e para que outras mulheres tenham medo de assumir a luta). Feminismo tampouco é a afirmação de um 'poder feminino', já que tal poder não existe numa sociedade de dominância masculina, e constitui uma defesa que geralmente significa 'poder de barganhar algo através da prostituição', e também nem seria estratégia reivindicar ser o feminino construído pelos homens. Mesmo que uma mulher tenha algum 'poder', com razoável independência financeira e inserção no mercado capitalista, o fato de estar no contrato de trabalho representa que não possui poder real, e principalmente: coletivamente não possuímos poder. A Liberdade que o feminismo reinvindica não é a Liberdade de Mercado nem a liberdade de ser um nicho de mercado (consumo de produtos de beleza, etc.) nem a Liberdade de entrar no contrato necessariamente desigual do trabalho assalariado. Feminismo luta pelo poder coletivo de mulheres, nas suas vidas para fazerem decisões e na vida pública para sua verdadeira participação nas decisões sociais, assim como verdadeiras condições de trabalho e de realização e desenvolvimento pessoal. Aliado a outras lutas, o feminismo luta pelo Poder Popular, para que o Governo seja o governo social do Povo.

O ‘Poder’ foi disputado como uma estratégia feminista no começo de suas movimentações, e hoje ainda permanecem pautas por maior inclusão nos cargos governamentais, nos partidos e outros. Embora tenha sido uma estratégia que trouxe alguns ganhos, vem demonstrando dispersar movimento em sua atuação realmente revolucionária: com as classes sociais populares, em movimentos de moradia, terra, indígena, comunitários e de bairro. Nossa libertação e a revolução não será dada pelos que estão no Poder. O Estado e o Governo surgem junto com Patriarcado e estruturalmente (para o fim que foram concebidos) existem para apoiar os grupos que estão no Poder, estes que comandam o tráfico internacional de mulheres, que invadem países, promovem guerras, destróem meio ambiente, poluem águas e dominam vastos territórios de terras e envenenam o solo, invadem nossa vida com bens de consumo que não trazem a felicidade e que muitas vezes nos matam com produtos químicos usados na confecção dos alimentos. O Estado e o Capitalismo fazem parcerias com movimentos sociais para ganhar sua força para seu lado, para o lado dos capitalistas, industriais e agressores, e fazem negociar nossos direitos flexibilizando nossas pautas. Atualmente com o processo de globalização, os países de terceiro mundo vêm aumentada a pobreza, e quem mais sofrem são as mulheres. A pobreza leva ao incremento da prostituição e da exposição dos filhos das mulheres ao uso de drogas e ao abandono à violência das ruas. Como o racismo veio da colonização que sofremos, negras e negros são os mais atingidos pelas políticas do chamado neoliberalismo, que vêm implantando a flexibilização das leis trabalhistas em nossos países de forma a disponibilizar mão-de-obra barata para países ricos/imperialistas e para gerar os contigentes de prostituição para o tráfico internacional.

A situação não dá indícios de estar melhorando, com desempregos todo dia e crises no 'mercado financeiro', este que agora determina nossas vidas aumentando o preço dos alimentos ou nos distraindo da dor e injustiça com bens de consumo supérfluos que se tornam acessíveis. Podemos estar confortáveis até a hora em que os impactos das políticas do patriarcado-capitalismo hegemônico chegarem até nós, mulheres, nossos familiares, filhas e filhos, companheiros/as e pessoas que amamos.

Defendemos, portanto, um Feminismo aliado às lutas populares, autônomo, combativo, radical, revolucionário e independente de bandeiras partidárias.

Mulheres venham para a luta!!

MITOS E FATOS

“Feminismo é o contrário de machismo”

MITO! Machismo é a idéia da superioridade dos homens, que se expressa na sua maior valorização social. Homens ocupam mais cargos de decisão, recebem salários maiores, são donos da maior parte das terras e riquezas mundiais. Mulheres são vistas como incapazes para certos empregos, seu trabalho é visto como complementar, mal-remunerado e seu lugar como sendo o da casa. Também são machistas as violências cometidas por homens contra as mulheres (estupros, espancamentos, agressões verbais e psicológicas, depreciação de suas capacidades e de sua vida: 'não cozinha bem, não faz nada direito, não é sexualmente atraente, está gorda'... que são formas de controle), atitudes de limitação de sua autonomia e capacidade, a presunção de que não sabem cuidar de si mesmas e precisam da proteção e apoio de um homem financeiramente, moralmente ou administrativamente. Geralmente dizer que feminismo é contrário de machismo é uma forma de inibir mulheres de assumir essa luta. O feminismo luta para que mulheres e homens sejam reconhecidos como Seres Humanos com mesmas possibilidades de desenvolvimento.

“ Feminismo é a luta histórica das mulheres por libertação!”

VERDADE! Essa liberação diz respeito a buscar uma nova identidade para as mulheres, ou seja, algo diferente do que estamos vivendo hoje, assim como uma nova forma de sociedade e de relações pautadas em novos valores. As feministas lutam pelo fim das violências contra mulheres e as lógicas de poder desiguais que o permitem, por uma sexualidade livre, conhecendo nossos corpos, o que nos dá prazer, acabando com a repressão sexual e a dupla moral que apenas permite o gozo sexual aos homens e pela liberdade de escolher nossa parceria amorosa, pela auto-aceitação, de nossos corpos e pessoas como realmente são, pela inserção das mulheres nos campos de trabalho que não os tradicionalmente femininos e por remuneração justa, pelo fim da dupla-jornada de trabalho que sobrecarrega mulheres nos trabalhos domésticos e os de ‘fora’, pelo resgate da cultura de mulheres, pela produção e expressão de nossos pensamentos nos campos das idéias e ciências, pela visibilidade lésbica que pôe em cheque a noção de que a heterosexualidade é uma premissa universal, pela saúde integral de mulheres e pela proteção do meio ambiente.

“Feministas são lésbicas recalcadas e mal amadas!”

Essa acusação é lesbofóbica e sexista. A lesbianidade aqui é definida como negativa, e é usada a estigmatização social relacionada a ela para inibir a adesão de mulheres ao feminismo assim como aos relacionamentos não-heterosexuais, e como forma de vigiar e reprimir seus movimentos e comportamentos, já que, na história, sempre que uma mulher expressou mais autonomia, vontade de crescer, estudar, ser ativa e participar da vida social, eram chamadas de 'feministas!' ou algo como 'transgressoras', 'subversivas' e... 'lésbicas'. Essa proximidade entre lesbianas e feministas se deve ao fato de que, ao longo da história, lésbicas também foram mulheres que não se conformaram aos ditames sociais e lutaram pela sua liberdade, assim como pelo fato de que o lesbianismo sempre foi visto como um perigo à ordem machista-patriarcal por representar a visibilidade de uma vida fora do contrato de submissão sexual e de trabalho doméstico com um homem.

Como nossa sociedade pune muitas vezes com morte essa escolha por mulheres e por uma vida fora do esperado para estas, chamar mulheres almejando liberdade de lésbicas é ao mesmo tempo, uma forma de tornar arriscadas suas opções políticas e contê-la, assim como também esconder a possibilidade do amor entre mulheres em sua potência revolucionária. Mulheres são ensinadas para agradar e quando expressamos nossos desejos de maior afirmação humana, nos induzem culpa por gerar 'tanto barulho e desconforto'.

O que é ser feminista então? Eu sou uma feminista?

Ser tornar feminista é conseguir se indignar com as questões expostas, de violência, falta de acesso à condições iguais de trabalho, morte, exposição de mulheres na prostituição, falta de autonomia reprodutiva nas decisões sobre seu corpo (se quero ser mãe ou não, se precisar realizar aborto estarei sem amparo e segurança legal), a invisibilidade do trabalho doméstico, a objetificação das mulheres nas mídias, a divulgação da violência sexual na pornografia, o controle que exercem sobre nosso corpo (padrões de beleza, uso obrigatório de cosméticos, demonização do aborto). Será que as feministas são ressentidas? Se é legítimo se ressentir da injustiça? Ou será que são simplesmente solidárias a todos os problemas que as mulheres sofrem? Será que para lutar por respeito e dignidade para as mulheres é ser mal-amada, ou passamos a questionar qual é o amor dos homens que nos matam, vendem e mutilam com seus padrões de beleza e definições do que é ser mulher?

(Por Coletivo de Ação Feminista. Contato: acaofeminista@gmail.com - http://acaofeminista.blogspot.com )

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um pouco sobre o que orienta o Coletivo este mês e reuniões

Amanhã realizaremos mais uma reunião do coletivo, que está aberta para todas ajudarem a construir. Estamos tendo cada vez mais interessadas e além de discutir propostas práticas, estamos realizando nossas leituras formativas para ajudar a entender, projetar e definir nossas estratégias de atuação.

Semana passada foi lida a introdução do livro da feminista Marilyn French, "A Guerra contra as Mulheres", onde ela faz uma breve retomada das origens e hipóteses sobre a dominação à mulher,o surgimento dos movimentos sociais e ecológicos, a exploração do trabalho feminino e a desigualdade, a dificuldade de provar a discriminação da mulher (por naturalizada que está) e o ataque ao corpo feminino em todas as culturas. Um bom texto de sensibilização e tomada de consciência.

NOSSA ORGANIZAÇÃO:

Vemos a necessidade de priorizar taticamente, neste primeiro momento, enquanto grupo, a propaganda feminista e a prática educativa e conscientizadora. Por primeiro entendemos defender o feminismo (e não o anarquismo ou o marxismo) enquanto ideologia que realmente traria as respostas e a forma de organização para mulheres, dentro de seus termos e sua experiência. Assim, levar o que este tem a dizer sobre divisão de trabalho, revolução social ou ecologia. A segunda entende poder fazer a tomada de consciência possibilitada pelo feminismo ser analisada pelas mulheres na leitura pessoal que faça de suas contradições cotidianas, que possa levar a uma mobilização e engajamento. O Feminismo deve buscar inquietar as Mulheres. A resposta só pode ser dada por nós mesmas, pois somos as protagonistas de nosso movimento de libertação que está intimamente relacionado com a libertação de todas demais formas de opressão e do próprio ecossistema em geral.

Um pouco de História -

A mais antiga divisão de trabalho é a divisão de gêneros homem x mulher que, no discurso dominante, é justificada tomando por base a suposta naturalidade da função reprodutiva da mulher, quando na história (claro, se estudamos nossas referências e não o que os homens da esquerda querem que a gente ache da causa da nossa opressão) vemos se tratar de um processo de conquista que se efetivou na tomada dos corpos das mulheres, através do controle sobre sua capacidade de gerar. Assim, o discurso da naturalização da maternidade social vem para garantir o trabalho gratuito da mulher; primeiro aos Patriarcas primordiais, depois ao Estado (que nada mais é que a organização da primeira Supremacia Masculina e sua pepetuação até os dias de hoje), que cuida e gera seus cidadãos já que é incumbência 'natural' ou parte gratificante da 'feminilidade'.

Esse processo de conquista tem impactos ambientais concomitantes, uma vez que se repete com as mulheres o que o imperialismo (masculino/falocrático) faz com as terras (ou se repete com as terras o que homens fazem com mulheres?), e aí também entrando a domesticação dos animais e a invenção do regime carnívoro. Isso pelo simples fato de que os primeiros homens guerreiros (o primeiro ensaio de uma casta militar) vêem na Natureza a Mulher, a origem que querem repudiar, a Imanência que querem Transcender (categorias usadas por Simone de Beauvoir com base em sua influência por parte da filosofia existencial-fenomenológica). Os homens inventam o 'Outro' para se instituírem como o Mesmo. Nesse processo vai violência, pois se trata de uma disputa de poder:

"A caça deu a eles uma posição na sociedade e uma base para a solidariedade. Mesmo depois que se percebeu o papel do homem na paternidade(...)a situação social permaneceu a mesma. (...) Como a única base para a solidariedade masculina é a oposição à mulher e porque sua finalidade é substituir o vínculo primitivo com a mãe, a quem os homens associavam qualidades essenciais à vida - nutrição, compaixão, suavidade e amor -, construir a solidariedade masculina sempre acarretou uma forma de brutalização. Os ritos de iniciação ensinam os meninos a desprezar e erradicar características 'femininas', substituindo-as por dureza, renúncia (não abnegação), obediência e deferência por homens superiores. Eles criam um vínculo diferente do amor, um instrumento para o bem 'mais importante', um objetivo transcendente - o poder. Muitos ritos de puberdade exigem especificamente que os homens rejeitem as mães e, com elas, o mundo 'feminino' ". (Marilyn French, A Guerra contra as Mulheres)

"Sua atividade [do guerreiro] tem outra dimensão que lhe dá sua suprema dignidade, e ela é amíude perigosa(...) Não é dando a vida, é arriscando-a que o homem se ergue acima do animal; eis porque na humanidade a superioridade é outorgada não ao sexo que engendra e sim ao que mata" (Segundo Sexo, pg 84)


Andreé Michel em 'O Feminismo: uma abordagem histórica' diz, contudo, que a divisão de trabalho 'primitiva' (coleta e caça) não pode se dizer suficiente para determinar relações de poder ou instituição de classes sociais. Pelo contrário: da era Paleolítica até a Segunda Revolução Neolítica as relações eram marcadas por flexibilidade nessas divisões de tarefas e por cooperação. Vestígios arqueológicos não trazem indícios de guerras. Diferentemente das alegações de Levi-Strauss, a dita 'troca de mulheres' entre os clãs nesse período se tratava de vínculos de paz entre estes, também sendo os homens 'trocados', numa espécie de casamento primordial. A idéia de uma origem do Patriarcado tão somente no surgimento das classes guerreiras acaba por repetir as análises androcêntricas da História. É preciso discriminar o marco real do surgimento de sociedades de exploração como sendo a instituição da Propriedade Privada.

Assim mesmo, essa forma de relação com a existência demonstrada por Beauvoir e essa nova forma de identidade através da dialética com um Outro objetificado (mudança esta que tem primeiro suas origens na mudança na economia material da sociedade que exige determinada superestrutura ideológica) implica numa mudança também no se relacionar com os recursos naturais e humanos: os homens utilizam-se eles como forma de extender seus domínios. O sistema latifundiário, que esgota a terra e nela despeja insumos agrícolas como se fosse coisa passiva, é muito parecido com o processo de violência sexual que se mantêm atraves dos tempos - seja por guerras, pela epidemia de abuso sexual e incestos, pela Prostituição e Tráfico Internacional ou pela Pornografia -, numa necessidade de manter a mulher como categoria definida como subordinada e objetificada:

"Já verificamos que, quando duas categorias humanas se acham em presença, cada uma delas quer impor à outra sua soberania; quando ambas estão em estado de sustentar a reivindicação, cria-se entre elas, seja na hostilidade, seja na amizade, sempre na tensão, uma relação de reciprocidade. Se uma das duas é privilegiada, ela domina a outra e tudo faz para mantê-la na opressão. Compreende-se pois que o homem tenha tido vontade de dominar a mulher. Mas que privilégio lhe permitiu satisfazer essa vontade?" (Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, vol. I, pag 81, Editora Nova Fronteira, 1980)

Só se pode defender e manter uma posição de Poder tomada às custas de alguém ou de algum povo com o mesmo recurso que se usou para tomar esse Poder: com força. Força militar, jurídica, institucional, ideológica e religiosa. Está inventado o Patriarcado, o regime da Supremacia Masculina, assim como os exércitos e outras formas de emprego de violência rotineira (os quadros de violência contra a mulher não são senão 'epidêmicos' como apontam as analises feministas, mas sim compulsórios à manutenção da dominação masculina e extração do trabalho feminino, mantendo uma classe toda obediente e temente), a Heterosexualidade Compulsória e Monogamia, a religião Monoteísta e as Leis.




A falta de Solidariedade entre Mulheres e a raíz disso -


Assim sendo, a opressão da mulher não acaba com o Capitalismo como pregam ideologias que intentam transformar a luta da mulher em mais uma 'questão específica' ou 'movimento dentro' de algo mais amplo, ou até mesmo uma versão de uma teoria-pai (marxista, anarquista), chegando a nos acusar de pautarmos algo mesquinho ou não pensar 'nos trabalhadores'. Como Beauvoir aponta em seu livro de 1948 e marco da 2a onda feminista, as mulheres estão divididas pelas classes sociais: "Não têm passado, não têm história, nem religião própria; não têm, como os proletários, uma solidariedade de trabalho e interesses; não há sequer entre elas essa promiscuidade espacial que faz dos negros dos EUA, dos judeus dos guetos, dos operários de Saint-Denis, ou das fábricas Renault uma comunidade. Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo seu habitat, pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social a certos homens - pai ou marido - mais estreitamente que as outras mulheres. Burguesas, são solidárias dos burgueses e não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e não das mulheres pretas. O proletariado poderia propor-se o trucidamento da classe dirigente; um judeu, um negro fanático poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e sonhar em compôr uma humanidade inteiramente judia ou negra: mas mesmo em sonho a mulher não pode exterminar os homens. O laço que as une a seus opressores não é comparável a nenhum outro" (O Segundo Sexo, pg 13). Estejam onde estiverem, as mulheres são o "proletário do proletário", mas somos impedidas de tomarmos uma consciência de classe 'feminista', sendo logo acusadas de divisionistas ou 'femistas', tensionadoras de casamentos e cruéis, sendo isso também uma forma de perseguição política.


Lutar a partir de nós mesmas -


O Feminismo nos leva a concluir que o Capitalismo não passa de mais uma expressão da organização da sociedade que fundamentalmente é Patriarcal, e que passou a se estruturar, embora já tenha seus fundamentos no acúmulo primitivo e na propriedade privada, a partir do século XVII e XVIII, mas como a mais antiga forma de dominação é a dos homens sobre as mulheres - processo esse que não foi jamais dado pela natureza ou por qualquer condição natural e que também não aconteceu sem resistência, e os dados de violência contra mulheres nos dão alguma idéia da dificuldade de conter tal grupo submetido - Capitalismo, Racismo, Sexismo, Especismo, Etarismo e qualquer forma de relação hierárquica e de poder desigual tem sua inspiração na Supremacia Masculina e derivou desta, como mecanismos inter-dependentes de opressão que operam junto para garantir as relações sociais presentes, a privilegiar um grupo minoritário detentor impróprio dos meios de vida de todos viventes. Eis porque não podemos ter a ilusão de combater apenas uma em particular; precisamos ser solidárias a todas lutas que de alguma forma estejam também nas linhas de combate, resistência e ameaça ao Patriarcado-Capitalismo posto:

"As distinções de classe são uma extensão do domínio masculino como tal, e não apenas dividem as mulheres pelas linhas econômicas, senão também servem para destruir os vestígios de antiga força matriarcal das mulheres" (Charlotte Bunch & Nancy Myron,"Class and Feminism" IN Hacia una Teoria Feminista del Estado, Catherine Mackinnon).


Para pensar e chegar a mais respostas sobre essas questões, VENHAM PARA NOSSAS REUNIÕES DE ESTUDOS NAS PRÓXIMAS SEMANAS, que terão por objetivo a retomada histórica desses acontecimentos.


*Postado por J., que acabou se bagunçando com os logins. A postagem não representa a posição de todas no coletivo e também não há consenso entre historiadoras e feministas sobre a origem das sociedades de opressão.