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quarta-feira, 6 de abril de 2011

"Escracho Público ao Machista Agressor". Ato de Feministas contra o Aumento



Por um mundo sem catracas e sem violência machista!


Estamos aqui hoje para falar de um assunto que tem nos afetado muito nesses meses de luta contra o aumento: a presença de um agressor de mulheres no centro das mobilizações.


Há cerca de 6 meses um dos militantes do movimento passe livre de São Paulo ameaçou de morte, perseguiu, constrangeu, agrediu verbalmente, insultou e limitou o espaço físico de uma companheira de movimentos sociais autônomos. Esse agressor tem que ser chamado pelo nome: ele se chama Xavier (Rafael Pacchiega).


Fazemos essa denúncia porque esse agressor continua frequentando os mesmos espaços políticos como se não houvesse acontecido nada ou como se aquilo que aconteceu não tivesse relevância política nenhuma. Que as agressões cometidas contra as mulheres sejam vistas como algo de pouca importância infelizmente não nos surpreende. Os movimentos sociais têm muita dificuldade de enfrentar coletivamente e publicamente as violências machistas que acontecem em seu meio. É estranho ver como as bocas daqueles que defendem todo o tempo que tudo é coletivo ou que assim deveria ser, ficam caladas nesse momento por um bizarro pudor. Insistem em tratar essas questões como algo menor diante das "lutas prioritárias" ou como algo pessoal que deve ser resolvido no âmbito privado. Privado nem pensar! As relações pessoais entre homens e mulheres são encarnações concretas do heteropatriarcado, uma estrutura historicamente desigual de opressão que é anterior à existência das catracas e do próprio capitalismo.


Um exemplo banal (ou nada banal) daquilo que estamos falando: por que se indignar diante de uma brutal repressão da polícia, mas silenciar e consequentemente acobertar a violência exercida contra as mulheres? A integridade dos corpos das mulheres não importam? Os corpos das mulheres têm menos valor que os outros? Ou só importam quando estão aglutinados na massa das lutas prioritárias e são invisibilizados na sua condição específica de mulheres?


Alguns podem pensar e dizer que nossa ação desvia a atenção do foco principal do movimento para coisas menos importantes, enfraquecendo a luta, que somos exageradamente radicais, que estamos "demonizando" alguém que cometeu um equívoco… Alguém vai chegar a dizer que somos loucas, histéricas e inclusive agressivas. A denúncia que estamos fazendo nesse momento é parte da reação ao abuso cometido e se constitui como uma ação direta de autodefesa feminista. Queremos denunciar a existência desse tipo de abuso e garantir que os movimentos sociais não sejam espaços de agressão, medo e opressão a nós mulheres e sim espaços de troca, de estabelecimento de relações de confiança, solidariedade e empoderamento de todas e todos nós. E isso deve ser uma tarefa assumida coletivamente. Entretanto, repetidas vezes, esses movimentos que se colocam como antagonistas de todas as opressões, se voltam contra aquel*s que denunciam a violência sem enfrentar efetivamente a discussão.


Não somos as primeiras e nem seremos as últimas a sermos violadas, agredidas, ameaçadas, silenciadas e invisibilizadas por militantes dos movimentos sociais. Mas também não somos as primeiras e não seremos as últimas a denunciar publicamente o acontecido. Estamos fartas de dividir espaços com misóginos que gostam de perseguir repetidamente as mulheres e depois livrar a cara dizendo que estavam surtados, com a ajuda cúmplice daquel*s que o defendem.


Nenhuma agressão ficará sem resposta.


http://www.youtube.com/watch?v=zvqBxEFJMy0&feature=related


http://feministascontraoaumento.noblogs.org

terça-feira, 16 de novembro de 2010

27 de Novembro: Programação para o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher!!


Tomar as Noites! Retomar nossos Corpos!

“Tome as Noites” é uma manifestação internacional contra a violência sexual que radica na apropriação dos corpos das mulheres e lésbicas pela hegemonia patriarcal. O terrorismo sexual que vivemos existe para manter os lugares sociais heterosexistas de homens e mulheres e o Poder Masculino, declarando que o espaço público e o mundo são dos homens e o das mulheres, o da casa e o confinamento doméstico, ou a manutenção da própria categoria social 'Mulher'.

Tomar as noites e as ruas é uma questão da visibilidade pública e da produção de um imaginário não-patriarcal para fazer frente às violências sexuais-políticas, mentais e corporais contra mulheres, violências que são essas formas de colonização.

“Pela descolonização dos nossos imaginários!”

Programação - 27 de novembro:

* 14h: Exibição do filme “La Teta Asustada” de Carla Llosa (Peru) + debate sobre a violência sexual, colonização e resistência na América Latina.
* 16h30:
Oficina de Stencil e Lambe.
* 18h30: Ato “Tome as Noites”.


!materiais: tragam seus rolos, estiletes, tesouras de unha, chapas, exames de raio-X antigos grandes e seus desenhos, colagens, recortes, imagens impressas, serigrafadas, xerocadas, com temática que para você expresse sua raiva e se manifeste!".

*** Local: FEDERAÇÃO DAS MULHERES DO PARANÁ. Rua Desembargador Westphalen,15. (Edifício Dante Aligheri, 6ºandar, sala 1601. (Esquina com Emiliano Perneta, em frente ao Museu de Artes do Paraná e Praça Zacarias).

Cartaz de divulgação baixe aqui!

terça-feira, 23 de março de 2010

Feminismo? Por que Feministas?

O Feminismo é um movimento social e uma ideologia política que geralmente é definido como a luta pela igualdade de condições entre homens e mulheres, mas que na verdade se expande para incluir a igualdade entre todos seres humanos e o respeito a todas formas de vida. De fato, desde os 60, feministas vieram lutando para que mulheres fossem reconhecidas como, mais que mulheres, seres humanos assim como os homens e qualquer outro gênero, assim afirmando a sua dignidade humana e desmistificando as noções clássicas que ditam o que mulheres e homens são ou devem ser, e as supostas diferenças entre esses.

Embora o termo feminismo ou feminista seja recente, não significa que mulheres nunca tenham lutado, ao longo da história, pela sua liberdade e afirmação. A resistência de mulheres sempre existiu, talvez um dos mais antigos registros de uma resistência de mulheres tenha sido a caça às bruxas durante a Inquisição Medieval, onde muitas mulheres que saiam do que era esperado delas - subordinação, obediência, resignação - mulheres que ousavam ocupar áreas de atividade e trabalho não permitida à mulheres, eram denunciadas e mortas, queimadas publicamente como 'ameaças à ordem'. Mulheres que expressaram alguma rebeldia e insubmissão ao longo do tempo podem ser vistas como feministas. Mesmo assim, por maior que seja o medo de mulheres de contestar as injustiças que presenciem, sempre há um grau de incômodo em todas mulheres, que às vezes são expressos em depressões e ansiedades, ou em pequenos e invisíveis sabotagens - queimam a comida, atrasam o expediente, 'nunca vencem a casa' demonstrando não-adaptação aos modelos exigidos delas.

Mulheres no começo do século XX passado sentiam muita inquietação e descontentamento por não se verem em possibilidades de exercerem todos seus potenciais, pois apenas eram permitidas atuarem no campo doméstico e não participar da vida pública de sua sociedade. Mulheres de classes mais pobres eram, pelo contrário, sobre-exploradas, situação que permanece, e assim se organizaram em movimentos de reinvindicação de melhorias nas condições de trabalho.

De onde vem a subordinação da Mulher?

Aprimorando suas análises, as feministas vão dizer, então, que a base da opressão sobre mulheres é o chamado Patriarcado, regime da dominação masculina, estabelecido pelo direito paterno na fundação da família. Nesta, surgem as divisões de trabalho doméstico e social, divisão que é falsa pois o trabalho de casa (incluindo aí toda gerência da família e seu bem-estar, o cuidado e criação dos filhos, a satisfação dos membros) é um trabalho social indispensável para que o Capitalismo se garanta. O trabalho feminino, de fato, é o mais sobrecarregado de todos, invisível - por não ser admitido como trabalho e sim como algo obrigatório derivado de sua condição de 'mulher' e 'mãe' - e sem reconhecimento social, não remunerado. Portanto, trata-se de um trabalho escravo.

Esse mesmo regime econômico (economia como sendo a administração dos meios de vida) precisou criar as classes sexuais como as conhecemos, homem e mulher, onde o primeiro representa os atributos da atividade, força, liderança, poder e o segundo passividade, impotência, obediência e dependência. Assim sendo, a origem de todas categorias de opressão - senhor/servo, patrão/subordinado, opressor/oprimido - surgem da divisão primeira da humanidade entre homens e mulheres. Todo oprimido, nas análises feministas, é ‘feminilizado’. A feminilidade é uma construção cultural que nos molda nos sujeitos que devemos ser, assim aprendendo desde cedo como 'funcionar' no sistema para que esse continue também 'funcionando' adequadamente. Isso significa que todos oprimidos têm algo em comum também, e que Racismo, Homofobia, Especismo (exploração dos animais), Classismo são lutas feministas pois, quando atacam os direitos de um destes grupos, atacam aos nossos também e de nós todos. A nossa Libertação só existirá quando todos forem Livres.
Então, enquanto as análises críticas de todos movimentos sociais não incorporarem as noções feministas não poderemos almejar uma profunda e verdadeira transformação social, já que o regime patriarcal é o mais antigo de todos e se ele permanece, mantêm reproduzindo os modelos e opressões que originam as sociedades Capitalistas, Imperialistas, colonizadas e militarizadas.

Feminismo é o contrário de Machismo?

Feminismo não significa extinção de homens, nem opressão à homens (geralmente isso é usado como uma forma de censura, perseguição e divulgação de um anti-feminismo e para que outras mulheres tenham medo de assumir a luta). Feminismo tampouco é a afirmação de um 'poder feminino', já que tal poder não existe numa sociedade de dominância masculina, e constitui uma defesa que geralmente significa 'poder de barganhar algo através da prostituição', e também nem seria estratégia reivindicar ser o feminino construído pelos homens. Mesmo que uma mulher tenha algum 'poder', com razoável independência financeira e inserção no mercado capitalista, o fato de estar no contrato de trabalho representa que não possui poder real, e principalmente: coletivamente não possuímos poder. A Liberdade que o feminismo reinvindica não é a Liberdade de Mercado nem a liberdade de ser um nicho de mercado (consumo de produtos de beleza, etc.) nem a Liberdade de entrar no contrato necessariamente desigual do trabalho assalariado. Feminismo luta pelo poder coletivo de mulheres, nas suas vidas para fazerem decisões e na vida pública para sua verdadeira participação nas decisões sociais, assim como verdadeiras condições de trabalho e de realização e desenvolvimento pessoal. Aliado a outras lutas, o feminismo luta pelo Poder Popular, para que o Governo seja o governo social do Povo.

O ‘Poder’ foi disputado como uma estratégia feminista no começo de suas movimentações, e hoje ainda permanecem pautas por maior inclusão nos cargos governamentais, nos partidos e outros. Embora tenha sido uma estratégia que trouxe alguns ganhos, vem demonstrando dispersar movimento em sua atuação realmente revolucionária: com as classes sociais populares, em movimentos de moradia, terra, indígena, comunitários e de bairro. Nossa libertação e a revolução não será dada pelos que estão no Poder. O Estado e o Governo surgem junto com Patriarcado e estruturalmente (para o fim que foram concebidos) existem para apoiar os grupos que estão no Poder, estes que comandam o tráfico internacional de mulheres, que invadem países, promovem guerras, destróem meio ambiente, poluem águas e dominam vastos territórios de terras e envenenam o solo, invadem nossa vida com bens de consumo que não trazem a felicidade e que muitas vezes nos matam com produtos químicos usados na confecção dos alimentos. O Estado e o Capitalismo fazem parcerias com movimentos sociais para ganhar sua força para seu lado, para o lado dos capitalistas, industriais e agressores, e fazem negociar nossos direitos flexibilizando nossas pautas. Atualmente com o processo de globalização, os países de terceiro mundo vêm aumentada a pobreza, e quem mais sofrem são as mulheres. A pobreza leva ao incremento da prostituição e da exposição dos filhos das mulheres ao uso de drogas e ao abandono à violência das ruas. Como o racismo veio da colonização que sofremos, negras e negros são os mais atingidos pelas políticas do chamado neoliberalismo, que vêm implantando a flexibilização das leis trabalhistas em nossos países de forma a disponibilizar mão-de-obra barata para países ricos/imperialistas e para gerar os contigentes de prostituição para o tráfico internacional.

A situação não dá indícios de estar melhorando, com desempregos todo dia e crises no 'mercado financeiro', este que agora determina nossas vidas aumentando o preço dos alimentos ou nos distraindo da dor e injustiça com bens de consumo supérfluos que se tornam acessíveis. Podemos estar confortáveis até a hora em que os impactos das políticas do patriarcado-capitalismo hegemônico chegarem até nós, mulheres, nossos familiares, filhas e filhos, companheiros/as e pessoas que amamos.

Defendemos, portanto, um Feminismo aliado às lutas populares, autônomo, combativo, radical, revolucionário e independente de bandeiras partidárias.

Mulheres venham para a luta!!

MITOS E FATOS

“Feminismo é o contrário de machismo”

MITO! Machismo é a idéia da superioridade dos homens, que se expressa na sua maior valorização social. Homens ocupam mais cargos de decisão, recebem salários maiores, são donos da maior parte das terras e riquezas mundiais. Mulheres são vistas como incapazes para certos empregos, seu trabalho é visto como complementar, mal-remunerado e seu lugar como sendo o da casa. Também são machistas as violências cometidas por homens contra as mulheres (estupros, espancamentos, agressões verbais e psicológicas, depreciação de suas capacidades e de sua vida: 'não cozinha bem, não faz nada direito, não é sexualmente atraente, está gorda'... que são formas de controle), atitudes de limitação de sua autonomia e capacidade, a presunção de que não sabem cuidar de si mesmas e precisam da proteção e apoio de um homem financeiramente, moralmente ou administrativamente. Geralmente dizer que feminismo é contrário de machismo é uma forma de inibir mulheres de assumir essa luta. O feminismo luta para que mulheres e homens sejam reconhecidos como Seres Humanos com mesmas possibilidades de desenvolvimento.

“ Feminismo é a luta histórica das mulheres por libertação!”

VERDADE! Essa liberação diz respeito a buscar uma nova identidade para as mulheres, ou seja, algo diferente do que estamos vivendo hoje, assim como uma nova forma de sociedade e de relações pautadas em novos valores. As feministas lutam pelo fim das violências contra mulheres e as lógicas de poder desiguais que o permitem, por uma sexualidade livre, conhecendo nossos corpos, o que nos dá prazer, acabando com a repressão sexual e a dupla moral que apenas permite o gozo sexual aos homens e pela liberdade de escolher nossa parceria amorosa, pela auto-aceitação, de nossos corpos e pessoas como realmente são, pela inserção das mulheres nos campos de trabalho que não os tradicionalmente femininos e por remuneração justa, pelo fim da dupla-jornada de trabalho que sobrecarrega mulheres nos trabalhos domésticos e os de ‘fora’, pelo resgate da cultura de mulheres, pela produção e expressão de nossos pensamentos nos campos das idéias e ciências, pela visibilidade lésbica que pôe em cheque a noção de que a heterosexualidade é uma premissa universal, pela saúde integral de mulheres e pela proteção do meio ambiente.

“Feministas são lésbicas recalcadas e mal amadas!”

Essa acusação é lesbofóbica e sexista. A lesbianidade aqui é definida como negativa, e é usada a estigmatização social relacionada a ela para inibir a adesão de mulheres ao feminismo assim como aos relacionamentos não-heterosexuais, e como forma de vigiar e reprimir seus movimentos e comportamentos, já que, na história, sempre que uma mulher expressou mais autonomia, vontade de crescer, estudar, ser ativa e participar da vida social, eram chamadas de 'feministas!' ou algo como 'transgressoras', 'subversivas' e... 'lésbicas'. Essa proximidade entre lesbianas e feministas se deve ao fato de que, ao longo da história, lésbicas também foram mulheres que não se conformaram aos ditames sociais e lutaram pela sua liberdade, assim como pelo fato de que o lesbianismo sempre foi visto como um perigo à ordem machista-patriarcal por representar a visibilidade de uma vida fora do contrato de submissão sexual e de trabalho doméstico com um homem.

Como nossa sociedade pune muitas vezes com morte essa escolha por mulheres e por uma vida fora do esperado para estas, chamar mulheres almejando liberdade de lésbicas é ao mesmo tempo, uma forma de tornar arriscadas suas opções políticas e contê-la, assim como também esconder a possibilidade do amor entre mulheres em sua potência revolucionária. Mulheres são ensinadas para agradar e quando expressamos nossos desejos de maior afirmação humana, nos induzem culpa por gerar 'tanto barulho e desconforto'.

O que é ser feminista então? Eu sou uma feminista?

Ser tornar feminista é conseguir se indignar com as questões expostas, de violência, falta de acesso à condições iguais de trabalho, morte, exposição de mulheres na prostituição, falta de autonomia reprodutiva nas decisões sobre seu corpo (se quero ser mãe ou não, se precisar realizar aborto estarei sem amparo e segurança legal), a invisibilidade do trabalho doméstico, a objetificação das mulheres nas mídias, a divulgação da violência sexual na pornografia, o controle que exercem sobre nosso corpo (padrões de beleza, uso obrigatório de cosméticos, demonização do aborto). Será que as feministas são ressentidas? Se é legítimo se ressentir da injustiça? Ou será que são simplesmente solidárias a todos os problemas que as mulheres sofrem? Será que para lutar por respeito e dignidade para as mulheres é ser mal-amada, ou passamos a questionar qual é o amor dos homens que nos matam, vendem e mutilam com seus padrões de beleza e definições do que é ser mulher?

(Por Coletivo de Ação Feminista. Contato: acaofeminista@gmail.com - http://acaofeminista.blogspot.com )

sábado, 6 de março de 2010

Manifesto 8 de março


"Estamos aqui pelos 100 anos de 8 março. Se nos vestimos de preto é porque estamos de luto e se nos escondemos é porque não vivemos seguras como mulheres no Patriarcado, quando há cada 15 segundos uma mulher é espancada, 3 mulheres são mortas por semana em Curitiba e Região, somos criminalizadas e presas se necessitando interromper uma gravidez, apelamos ao aborto; e vivemos com medo constante de sermos estupradas e assediadas nas ruas.
Na história fomos queimadas numa greve dentro de uma fábrica e milhares foram queimadas como bruxas. Seguimos sendo perseguidas. Nós mulheres vivemos em estado de medo. E esse medo é da dominância masculina e da repressão do sistema, esse medo tem motivações políticas. Não é seguro uma mulher erguer a voz e por isso não nos expomos. Também não nos expomos porque não temos líderes e não queremos hierarquias. Não estamos aqui para comemorar, estamos aqui para recordar e para lutar. Temos rebeldias nos nossos cotidianos, enfrentando e contestando a autoridade. Mas estamos aqui em nome da Autonomia Feminista. É essa a forma de participação política e luta organizada que acreditamos.

Nós mulheres temos que ser o centro de nossas lutas. Não podemos seguir fazendo papel do sexo secundário nos partidos, ideologias e filosofias políticas, nos sindicatos e organizações, as donas de casa, cuidadoras do bem-estar destes espaços. Gênero não é um complemento. Gênero é uma questão crucial, e mais: uma questão radical. Nós não nascemos para ser complementares dos homens. Completam 100 anos do 8 de março, mas nossa luta vem há mais tempo. Muitas mulheres resistiram e foram mortas para que estivessemos aqui, seus desejos eram de emancipação de todas mulheres, e de que se acabasse a subordinação da mulher. Mas o movimento de mulheres vem reproduzindo seu papel tradicional esperado pela sociedade sexista, que as explora como mães e mulheres. Devemos honras às companheiras que nos deram uma história e um futuro, não podemos aceitar o papel subordinado, agora aos novos patrões e patriarcas acatando as ordens autoritárias dos partidos, organizações centralizadas e bandeiras políticas mentirosas que nos apagam e menosprezam.

Não seguiremos sendo bucha de canhão das revoluções que não nos contemplam. Se não posso dançar, não é minha Revolução. Nenhuma Revolução e nenhum sistema econômico mudou realmente as coisas para mulheres, embora tivessemos trabalhado em todos movimentos de libertação que surgiram. Sem nós, o sistema pára. Trabalhamos nas terras dos senhores, somos o setor mais pobre e explorado da sociedade, realizamos dupla jornada trabalhando nas casas e chefiando famílias. Somos a mão-de-obra mais barata do sistema e a mais empregada em todos setores. Nosso trabalho é invisível e não-reconhecido quando criamos nossos filhos para a nação fascista que nos obriga à maternidade. Precisamos começar a fazer algo por nós mesmas. E é a nossa luta como mulheres e o Feminismo que traz os elementos pra uma verdadeira e ampla revolução social. Um movimento de mulheres Feminista, Autônomo, Libertário, Revolucionário, Combativo e Radical nas propostas e mudanças. Queremos a extinção da feminilidade, do sistema de gêneros, do Patriarcado-Capitalismo, dos Governos e do Estado.

As mudanças que almejamos não serão dadas pelo Estado, nem por nossos Patrões, nem por nossos maridos nem pelos comitês centrais dos partidos que nos exploram e às nossas esperanças tal qual os capitalistas. Porque todos estes são frutos do Patrtiarcado, ou Dominação Masculina, que só consegue conceber modelos binários de dominante/dominado, senhores e escravos, patrões e empregados, sádicos e masoquistas, destruindo qualquer referência a uma possibilidade de relações horizontais, que é uma busca politica feminista em seu apelo à igualdade. Somente uma verdadeira e ampla Revolução Social trará um mundo diferente deste, do sistema do Capital e de Classes, do Imperialismo e Militarismo. Essa revolução não vai ser construída por nossos governantes, mas pela rebelião dos povos. Somos desobedientes, não serão as leis que aprisionam nem as políticas desse mesmo Estado que massacra pobres e negr@s, mata mulheres negando assistência a saúde e aborto seguro, que se silencia e é cúmplice perante o feminicídio e o tráfico de mulheres em prostituição que trarão a segurança e a liberdade que mulheres esperam há tantos anos.

Pelo fim do sistema do Capital – Patriarcado, e suas variantes Racistas, Classistas, Especistas, Lesbofóbicas e seu fascismo original.

Pela Autonomia Feminista. Nem Deus, nem Pátria, Nem Patrão, Nem Partido e Nem Marido. Feminismo já!"

- Coletivo de Ação Feminista, 6 de março de 2010, em ato pelos 100 anos do 8 de março, Curitiba-PR



terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Desde a Insignificância

"Acusações podem vir da ignorância mas elas servem aos interesses dos homens, não das mulheres" Mary Daly.

Como te atreves?
Insolente.

Pretendes qualificar-me
sem saber como se vive
desde o alto da escarpa.


Tu, ostentando propriedade

do mundo.


Com sua idéia moral
e de bem-proceder.


Te estorvo tanto,
que seria grande
tratar de enumerar,
em exato
aquilo que julgas.

Que neguei-me
a ser tua musa
ou a imagem étnica
que te justifica.

Que cansei-me
da servidão.
Que estou farta
da incondicionalidade absurda.

Provavelmente,
é porque tomei a opção
de abrir os horizontes
de escutar minha voz,
de nomear a minha irmã,
e que me fiz apropriar-me
de meu fazer-autonomia.

Então, me acusas:

Que sou vaidosa.

Que me falta sabedoria
- para entender suas regras -.

Que de minha boca saem mentiras
- porque não posso tragar suas verdades -.

Porque tomei a palavra.
Porque inventei meu caminho.
Me chamas infiel.
Outra vez sou a hereje.
Novamente, a pecadora.

Você, desde a altura iluminada,
sentencias, como se pudesses,
sobre a alma minha,
e me chamas mulher de obscuridade.

Desde teus altares,
ante suas tribunas,
empunhando teu cetro.
Ordenou desfigurar
a imagem de meu rosto.


Tentou esconder meu nome
dos testemunhos.

Porém,
não logras o esquecimento
da minha existência.

Deixa-me, deixa-me.
Elijo ser a pária.
A infecciosa.
A insuficiente.

Fico aqui,
vaidosa,
instintiva,
com minha inteligência pouca,
com minha verdade sombria.

Fico aqui,
sentada em minha soberbia.
Já que uma coisa eu entendo.
Uma só, é certa:

Se estou tão errada;
Se tenho o caminho tão perdido;
Por que insistir em negar
o que 'não conta'.

Por que você, desde o poder,
se ocupa de me conter
de me acossar, de me acurralar.

Por que, se sou apenas nada
Por que, então,
minhas perguntas abrem feridas?

Por que se questiono eu,
você e suas hierarquias encharcam cimentos.

Por que, se abro eu a boca,
tu tremes.



Patricia Karina Vergara Sánchez é uma feminista lésbica, poetisa e escritora mãe de uma filha que vive no México. e que, como ela mesma diz "Sou morena, gorda e peluda." e que "Constantemente está desempregada", por ter "escolhido inconformar-me quando há injustiças e por culpa desses olhos meus que se dão conta e desta boca nécia que não quer calar.". Mais em seu site cuentitospallevar.blogspot.com ou por e-mail: pakave@hotmail.com


Rebeldias Lésbicas

Filme realizado para comemoração do dia das Rebeldias Lésbicas, em 13 de Outubro, data de visibilidade das lutas lésbicas-feministas em toda América Latina e Caribe.

"As sequências são una visão pessoal da razão de ser e trabalhar desde o feminismo. Também é uma explicitação dos referentes de formação política lesbo-feminista que tive."

realizado por Alejandra Aravena, Radio Numero Critico (
radionumerocritico.cl)




Me desnudam com sordícia
Me silenciam com sangue
Deformam meu corpo
Extirpam meu prazer.

Com suas migalhas me educam para servir-lhes.
Ainda escrava, atada às penas de minha terra,
Libero meus mares para sanar-me.

Expulsa de seu paraíso
Como deusa me violaram
Como sábia me queimaram
Como lutadora me torturaram.

Ser mulher não me basta...
Ser lesbiana não é suficiente...
Foi etiquetada, classificada e analisada
cada parte de mim.

Ante suas navalhas ensanguentadas,
Suas escolas fechadas,
Suas cozinhas vazias,
Suas bombas assassinas...

Cada átomo de meu ser vibra
Em saltos cada vez mais amplos,
Explodindo em uma reação em cadeia:
De vida, de alegria...
de REBELDIA.

(Feministas escritoras, autoras, teóricas e inspiradoras às quais o vídeo dedica-se:

Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Monique Wittig, Teresa de Laurentis, Judith Butler, Tsitsi Tiripano, Cherríe Moraga, Jill Johnston, Barbara Smith, Sheila Jeffreys, Audre Lorde, Adrienne Rich, Gloria Anzaldúa, Cheryl Clarke, Margarita Pisano, Juanita Ramos, Julieta Paredes, Rosangela Castro, Cecilia Riquelme, Mariana Pessah, Paulina Vera, Marlore Moran, Ochy Curiel, Chuy Tinoco, Yuderkys Espinosa Miñoso, Melissa Cardoza, Norma Mongrovejo, Jules Falquet, Ximena Bedregal, Yan María Yaoyólotl Castro, Doris Muñoz, Erika Montecinos, Claudia Acevedo, Jana Aravena, Jennifer Mella).

"1o dia Internacional das Rebeldias Lésbicas, 2007
Agradecimento a todas
Com as que estive aprendendo, chorado, rido... crescido. E aquelas com as quais estou em desacordo.
Por todas nós... "


Textos e Sequência: Alejandra Aravena
Música: "Cantigueiras", Carlos Nuñez com Xinderela
Imagens: várias fontes disponíveis
A respectiva autoria está disponível em:
www.radionumerocritico.cl
Outubro de 2007